A Avenida Comercial Norte, um dos pontos mais tradicionais do Distrito Federal, enfrenta um fechamento em massa de lojas. O cenário de calçadas movimentadas e vitrines cheias deu lugar a placas de “aluga-se”, o que preocupa sobre o esvaziamento urbano da região.
Para o corretor de imóveis Hélio Eustáquio da Silva, da Hélio Imóveis, o declínio é resultado de fatores como a carga tributária e a mudança no comportamento do consumidor. “Há muitos imóveis desocupados, especialmente em função dos frequentes aumentos de impostos e da mudança de mentalidade das pessoas, que hoje preferem consumir em locais com maior concentração de lojas, como os shopping centers”, afirma.
Segundo o especialista, o tempo médio para alugar um imóvel na área gira em torno de oito meses. A grande oferta de espaços vazios dá aos interessados maior poder de barganha. “No comércio, sempre será a lei da oferta e da procura que baliza as relações entre locadores e locatários”, explica.
O corretor ressalta que o custo operacional tornou a região pouco atraente. “O IPTU cobrado pelo governo é exorbitante e não reflete o estado de abandono em que a avenida se encontra. Essa carga tributária está fora da realidade dos comerciantes, que enfrentam faturamento deficitário e margens de lucro menores”, conclui.
A insegurança também afeta o comércio. O vendedor Alisson David, de 30 anos, que trabalha no setor de vestuário masculino, relata que o movimento caiu muito. “Sentimos um baque grande até em janeiro e dezembro, que costumam ser meses fortes. Além de vender menos, a gente sofre com a insegurança. Fechamos a loja às 19 horas e a falta de policiamento preocupa muito”, conta. Ele acrescenta que na Avenida Sandu, onde pega o ônibus, ouve relatos de assaltos a mulheres.
O atendente José Pereira, que trabalha em um brechó na região, diz que a presença de moradores em situação de rua afasta a clientela. “Quase todos os dias vemos moradores de rua por aqui. Isso acaba afastando os clientes, que ficam com medo de entrar.” Apesar das dificuldades, ele afirma que a proprietária do brechó não cogita migrar para o atendimento online. “Fazemos questão da experiência tradicional, de ver o cliente vindo até a loja”, diz.
A produtora rural Maria Aparecida Silva, de 56 anos, frequenta a Comercial Norte toda semana. “Antigamente, essa comercial tinha de tudo, mas hoje a realidade é outra. Muitas portas se fecharam. O que falta de verdade é o policiamento e a segurança pública”, afirma.
O motorista de aplicativo Anderson Fábio dos Santos, de 37 anos, dirige pela área diariamente. “Dá para perceber claramente que o movimento das lojas despencou. O preço dos aluguéis está sufocante. Muitos proprietários cobram valores fora da realidade”, opina.
A Administração Regional de Taguatinga informou que não tem um mapeamento com o número exato de lojas fechadas. O administrador alega que o esvaziamento reflete uma mudança iniciada na pandemia, quando muitos lojistas migraram para o comércio eletrônico ou para shoppings e centros empresariais. Como resposta, a Administração aposta em um projeto de política de ocupação que tramita na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh).
