Os advogados da campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) defenderam junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o uso de um vídeo de Jair Bolsonaro (PL) feito por inteligência artificial. A gravação foi exibida na convenção eleitoral do partido, realizada no sábado (25). A defesa argumenta que o material não teve a intenção de enganar o público ou espalhar conteúdo falso.
O documento, assinado pela ex-ministra e advogada Maia Claudia Bucchianeri, responde a uma representação por propaganda eleitoral antecipada e uso irregular de inteligência artificial. A ação foi apresentada pela Federação Brasil da Esperança, da qual o PT faz parte, no domingo (26), contra o PL e Flávio Bolsonaro.
Os denunciantes pedem, de forma preventiva, que o trecho da transmissão seja removido das redes e não possa mais ser divulgado. No julgamento do mérito, solicitam que a Justiça reconheça o vídeo como ilícito e aplique multa de R$ 30 mil para cada publicação e por representado.
Na ação, os partidos afirmam que o vídeo com o avatar sintético de Bolsonaro tem “inequívoco conteúdo eleitoral”. Eles dizem que a IA foi usada para potencializar “o impacto emocional da mensagem”, o que lhe deu “elevado poder de persuasão”. Segundo a federação, a veiculação do conteúdo “macula a paridade de armas”, o que justificaria a ação da Justiça Eleitoral.
Após sorteio, o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, se tornou o relator da ação. Caberá a ele a decisão inicial sobre a regularidade da conduta. O ministro poderá enviar a decisão ao plenário para validação de forma automática, ou apenas se houver recurso.
Em declaração ao jornal O Estado de S. Paulo, Kassio Nunes Marques disse, após a convenção e antes de ser sorteado relator, que “usar IA para fazer campanha é lícito, mas não pode usar para prejudicar alguém”. Como o TSE ainda avaliaria o caso, afirmou que não comentaria o caso específico.
O vídeo exibido na convenção tem 46 segundos e mostra a imagem de Bolsonaro com um fundo branco. No vídeo, o ex-presidente diz: “Isso que vocês estão vendo aqui não sou eu. Isso é uma simulação da minha imagem e da minha voz feita com inteligência artificial. Como todos aqui sabem, eu estou preso e calado por uma decisão injusta e arbitrária, baseada em algo que eu nunca fiz”. Ele completa: “Por isso, peço que vocês recebam de braços abertos a pessoa que escolhi para me substituir, sangue do meu sangue, meu filho Flávio. Vem com fé, o Brasil tem futuro, e o futuro é Flávio Bolsonaro presidente”.
A defesa de Flávio argumenta que, apesar de a resolução do TSE proibir deep fake na propaganda eleitoral, o vídeo não se enquadra nessa definição. Isso porque, segundo os advogados, não houve intenção de enganar o público e nem mensagem ofensiva. “A deep fake tem a enganosidade como mote, reveste-se de intuito ofensivo e tem por padrão introduzir ou manipular digitalmente registros reais, aprofundando o induzimento em erro. O público foi avisado de que não se tratava de presença física, transmissão ao vivo ou gravação autêntica de Jair Bolsonaro”, diz a peça.
Para os advogados, a proibição de conteúdo artificial pelo TSE se aplica apenas a mensagens manipuladas para espalhar fatos inverídicos ou descontextualizados com potencial de desequilibrar a disputa. “O avatar reclamado nada mais é do que a versão moderna e tecnológica daquilo que sempre foi usado em eventos partidários e eleitorais como bonecos de papel, imagens em cartazes e até em máscaras, camisas, com mensagens de apoio”, afirma a defesa.
Bucchianeri e os demais advogados também contestam a acusação de propaganda antecipada. Eles dizem que a gravação foi exibida apenas em um evento interno do partido, uma convenção fechada a apoiadores, filiados e delegados, e não trouxe pedido explícito de voto. “A propaganda ‘para dentro’, ‘intrapartidária’, realizada nas convenções partidárias ou nos 15 dias que a antecedem é lícita e faz parte do próprio estágio político de definição de candidaturas”, diz a peça.
